Carnaval 2026: 6 iniciativas contra o assédio na folia
Do Ligue 180 às tendas de acolhimento, iniciativas espalhadas pelo país buscam garantir que mulheres possam ocupar blocos e circuitos sem medo
Por Amanda Stabile
11|02|2026
Alterado em 11|02|2026
Carnaval é tempo de alegria, encontro e rua cheia — mas, para as mulheres, o medo ainda caminha junto com a folia. Para que possam circular com segurança nos blocos, trios e circuitos, não basta contar com a boa vontade de quem está ao redor: é preciso prevenção, informação, canais de denúncia acessíveis e presença efetiva do poder público para acolher e agir diante da violência.
Os números mostram o tamanho do desafio. A pesquisa “Percepção sobre o assédio no Carnaval” (2024), do Instituto Locomotiva, indica que sete em cada 10 brasileiras têm medo de sofrer assédio durante o Carnaval, metade já foi vítima de importunação sexual na festa e 97% consideram importantes campanhas de combate ao assédio nesse período.
Visando fortalecer essa proteção, governos federal e estaduais colocaram em prática campanhas, protocolos e operações específicas. Conheça algumas dessas iniciativas:
“Se liga ou eu ligo 180” (Governo Federal)
A campanha nacional do Ministério das Mulheres busca posicionar o enfrentamento à violência de gênero como parte estruturante do Carnaval, e não apenas como ação pontual de comunicação. Com o slogan “Se liga ou eu ligo 180”, a estratégia aposta numa linguagem direta para reforçar três ideias centrais:
- o direito das mulheres de ocupar a festa e o espaço público sem medo;
- a afirmação de que violência não é “brincadeira de Carnaval”; e
- a responsabilidade coletiva de intervir diante do assédio.
Para isso, o ministério espalhou peças de alto impacto visual — painéis, faixas, adesivos, iluminação temática, locuções e materiais gráficos — em sambódromos, blocos e circuitos oficiais, sempre vinculando a mensagem ao Ligue 180, canal gratuito de denúncia e orientação disponível 24 horas por dia, inclusive por WhatsApp.
“Não é não” – Rio de Janeiro
No Rio, o enfrentamento ao assédio é tratado como uma operação prática de prevenção dentro dos próprios espaços da festa. A Secretaria Estadual da Mulher coordena uma força-tarefa que reúne Polícia Militar, Liga das Escolas de Samba, empresários, camarotes, blocos de rua e comerciantes, com foco na formação de uma rede de acolhimento.
Desde 2025, um decreto tornou obrigatória a capacitação de profissionais que atuam em grandes eventos, que passam a aprender como reconhecer sinais de importunação, intervir com segurança, proteger a vítima e acionar os serviços públicos.
A campanha “Não é não” reforça o consentimento como regra básica, enquanto ações presenciais no Sambódromo da Sapucaí — como painéis, adesivos em banheiros, QR Codes, locuções e distribuição de materiais informativos — garantem visibilidade constante da mensagem.
A Patrulha Maria da Penha também atua nos circuitos, oferecendo orientação direta e atendimento imediato. A lógica é transformar bares, camarotes e blocos em pontos ativos de proteção, não apenas locais de lazer.
“Não acabe com a minha festa” – Distrito Federal
No Distrito Federal, as equipes da Secretaria da Mulher vão até onde a festa acontece. Pelo quarto ano consecutivo, servidores percorrem blocos, bares, restaurantes e eventos nas regiões administrativas do DF realizando abordagens educativas, conversas com comerciantes e orientação a foliões.
A ação distribui cerca de 3 mil cartazes e adesivos com o slogan “Não acabe com a minha festa”, fixados em áreas estratégicas como banheiros e entradas, com QR Codes que direcionam ao site da secretaria e aos canais de denúncia (190, 156 e 180). A presença física das equipes permite acolhimento imediato e encaminhamento de casos à rede de proteção.
Paralelamente, o DF implementa o Protocolo “Por Todas Elas”, que obriga espaços públicos e privados a adotar medidas de segurança e apoio a mulheres vítimas de violência, institucionalizando responsabilidades para organizadores de eventos. A proposta é combinar informação, proximidade e resposta rápida.
“Alegria sim, assédio não” – São Paulo
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo lançou a segunda edição do projeto “OAB Por Elas no Carnaval”, iniciativa que oferece acolhimento humanizado e suporte jurídico gratuito a mulheres vítimas de assédio, importunação ou agressões sexuais durante a folia.
Com o slogan “Alegria sim, assédio não”, a ação mobiliza mais de 300 advogadas voluntárias que atuam em plantões presenciais na capital — incluindo blocos e o Sambódromo — e também de forma online em todo o estado. O atendimento pode ser solicitado pela plataforma “Ela Protegida”, garantindo orientação jurídica imediata, esclarecimento sobre direitos e apoio para registro de denúncias.
“Depois do Não, é Crime, Uai!” – Minas Gerais
Minas combina prevenção educativa com reforço institucional. A Polícia Civil mobilizou milhares de agentes para atuar durante o período, instalou delegacias móveis em áreas de grande fluxo — como o centro de Belo Horizonte — e reforça o funcionamento 24 horas das unidades de plantão para registrar ocorrências com agilidade.
Paralelamente, a campanha “Depois do Não, é Crime, Uai!” dialoga com a cultura local para deixar claro que investidas sem consentimento configuram crime, mesmo em ambiente festivo. A estrutura inclui servidores bilíngues para atendimento a turistas e integração com outras forças de segurança. A ideia é garantir tanto informação prévia quanto resposta rápida e visível, reduzindo a subnotificação.
“Oxe, me respeite!” – Bahia
Na Bahia, a prevenção ao assédio e à violência de gênero durante o Carnaval é conduzida principalmente pela campanha “Oxe, me respeite!”, coordenada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que atua de forma direta nos circuitos oficiais da festa em Salvador e em municípios do interior.
A estratégia combina comunicação pública e atendimento presencial: equipes instalam tendas fixas em pontos de grande circulação para oferecer acolhimento imediato, orientação, escuta qualificada e encaminhamento de mulheres em situação de assédio ou violência para a rede de proteção, como a Casa da Mulher Brasileira e outros serviços especializados.
Além do suporte às vítimas, a campanha realiza ações educativas com foliões, trabalhadores e comerciantes, reforçando a mensagem de que importunação sexual é crime e que o respeito é condição básica para a festa. Ao marcar presença física nos espaços do Carnaval, o governo busca reduzir a subnotificação, facilitar denúncias e garantir que mulheres saibam onde encontrar ajuda rápida e segura.